Moneyball: que percurso do basebol ao futebol?
Estreia por estes dias a versão cinematográfica do livro de Michael Lewis, “Moneyball, the art of winning an unfair game”, que relata a história verídica sobre a forma como os Oackland Athletics, pela mão do seu director Billy Beane, mudaram a forma de gerir o basebol profissional nos Estados Unidos. Basicamente, o segredo passou por romper com os métodos tradicionais de avaliação de jogadores, introduzindo uma forte componente estatística nas decisões de mercado, o que permitiu a uma equipa com poucos meios fazer negócios extraordinários e atingir uma performance desportiva impensável à partida. O caso mudou o mundo do basebol, mas o seu mediatismo, nomeadamente através da chegada ao cinema, ameaça acelerar também o processo de contágio aos outros desportos. Com incidência especial em Inglaterra, o caso já motivou várias reflexões sobre a possibilidade deste tipo de orientação analítica se estender também ao futebol. Sendo este um tema que me é pessoalmente caro, não quero perder a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista…
Os “scouts”, e o enorme obstáculo da resistência à mudança
No livro, não há personagem mais ridicularizada do que os “scouts” que inicialmente tomam contacto com os novos métodos de avaliação de Billy Beane. Após décadas de experiência na observação de jogadores, não podiam acreditar que o seu grau de especialização fosse agora posto em causa por meros números saídos de um computador, e que nem sequer tinham em conta qualquer visionamento dos jogadores. Naturalmente, a maioria não fez qualquer esforço para se adaptar ou perceber a nova abordagem e o destino destes profissionais foi a porta de saída, com posterior ridicularização aos olhos do mundo.
Na verdade, porém, a história é algo cruel para estes “scouts” porque a sua atitude é perfeitamente compreensível, ao ponto de ser até a mais comum e esperada num caso deste género. Havendo um paradigma de actuação, as pessoas que estão no sistema chegaram às respectivas posições através da sua adaptação ao mesmo, estando naturalmente confortáveis com ele. Mudar, não é apenas um novo e difícil desafio intelectual, é sobretudo uma ameaça para as posições que têm e atingiram ao longo de anos. O caso da resistência à mudança está perfeitamente diagnosticado em todas as áreas de actividade, nomeadamente no mundo empresarial, e constitui-se no maior risco que qualquer mudança de paradigma, por muito boa que seja, pode ter.
O caso dos Oackland Athletics teve sucesso, não apenas por ter explorado um excelente ideia que todos se recusaram a ver durante anos, mas porque teve uma implementação de cima para baixo na organização. Ou seja, partiu e foi forçada pelo principal responsável, Billy Beane, e não esteve dependente do espírito e inteligência operacionais.
Futebol não é basebol, e a necessidade de evoluir em especificidade
A frase “o futebol não é basebol”, será encontrada vulgarmente como tentativa de descredibilização primária da ideia em si mesmo. Realmente, o futebol não é basebol, mas a implicação das suas diferenças, porém, não comprometem a importação da ideia mas, pelo contrário, tornam-na muito mais atractiva.
O motivo é simples, e tem a ver com a maior complexidade de análise no futebol relativamente a outros desportos onde a estatísticas são mais intuitivamente utilizáveis. Todos sabemos que dados simples como número de remates, ou tempo de posse de bola nos dizem muito pouco sobre um jogo e por isso estes dados sempre foram muito pouco valorizados na apreciação do futebol. Um jogo mais simples, como é o basebol, tem métricas obviamente mais correlacionáveis com o sucesso, mas essa trivialidade tem também o condão de permitir uma menor especificidade no desenvolvimento desta abordagem. No futebol, por outro lado, é possível elaborar indicadores mais complexos e específicos, e por isso com maior potencial de diferenciação.
Uma outra diferença do futebol para o basebol, e para o caso dos Oackland Athletics em concreto, é que a incorporação de elementos estatísticos tem um potencial de abrangência muito mais amplo do que a mera abordagem ao mercado. É possível conceber este tipo de elementos para a monitorização e auxílio do desenvolvimento de jogadores e equipas, no campo individual e táctico, através de indicadores específicicos para cada equipa ou jogador. Ou seja, a complexidade do futebol oferece um potencial de maior especificidade e diferenciação de abordagem de equipa para equipa, podendo a utilidade assumir maior transversalidade do que no caso exposto no filme/livro.
Expectativas, segredos, e o caso Liverpool
Sendo, do ponto de vista técnico, óbvio o potencial deste tipo de abordagem para o futebol (ou para qualquer desporto, de resto), restam-me algumas dúvidas sobre a forma como ela será realmente aproveitada. Primeiro e sobretudo, pela tal resistência à mudança, que apesar do mediatismo deste caso continuará a ser muita. Depois, pela menor trivialidade da abordagem. O futebol tem hoje acesso a uma informação impensável até há bem pouco tempo, com a generalidade dos principais clubes a terem instalados sofisticados sistemas de análise de jogos nos seus estádios, mas esses dados não oferecerão mais do que meras curiosidades se não forem sujeitos a um mais detalhado tratamento posterior.
A ideia que sobra das diversas reflexões sobre o tema é que existe a consciência do potencial deste tipo de abordagem na generalidade dos principais clubes mundiais (particularmente em Inglaterra), mas que a forma como é tratada tenderá a ser conservada dentro do maior secretismo, podendo esta tendência conduzir a uma evolução potencialmente diferente (e, logo, diferenciadora…) de clube para clube.
Em Inglaterra, o Liverpool e a sua recente administração confessaram-se seguidoras da abordagem de Billy Bean, sendo curioso verificar o seu recente comportamento no mercado. O Liverpool investiu em cinco jogadores, tendo contratado mais dois a custo zero. Entre os cinco jogadores que tiveram custos, apenas um não é proveniente de clubes de menor dimensão da Premier League. Ou seja, parece haver um padrão de aposta em jogadores que não precisem de tempo de adaptação ao futebol doméstico, jogadores de idade inferior a 26 anos, que estejam numa trajectória ascendente e com um histórico de lesões que permita confiar na sua fiabilidade. A este perfil correspondem quatro jogadores: Charlie Adam (ex-Blackpool), José Enrique (ex-Newcastle), Stuart Downing (ex-Aston Villa) e Jordan Henderson (ex-Sunderland). Não se pode falar exactamente de uma analogia com o caso dos Oackland Athletics, já que a aposta na Premier League implicará sempre investimentos avultados, mas dificilmente os ‘Reds’ estarão descontentes com o perfil definido, já que qualquer dos 4 actuou em todos os 20 jogos da Premier League, tendo uma utilização média de quase 90% do tempo possível. Não sendo obviamente um caso conclusivo seja para o que for, será pelo menos interessante de seguir…
