De Higuita a Valdés, 20 anos de uma revolução incompleta
Para muitos de nós, não parecerá tão distante. O facto é que não falta muito para que se completem 20 anos desde uma alteração à Lei XII, que mudou, e muito, o futebol. Foi, precisamente, em 1992 que os guarda redes deixaram de poder usar as mãos na sequência de atrasos deliberados.
Não foi preciso assim tanto tempo para que todos pudéssemos constatar os benefícios da medida para o jogo, aliás, o que espanta é como é que se passou tantos anos, e tantos jogos, sem essa restrição. Mais demorada tem sido, no entanto, a maturação das implicações dessa regra no jogo e na atitude das equipas. E, aí, 20 anos não terão sido ainda tempo suficiente para que a mudança de paradigma fosse completa.
Divagando um pouco pela História do jogo, não deixa de ser irónico verificar que a competição que mais terá motivado essa alteração, o Itália 90, tenha sido precisamente aquela em que se mostrou também o mais aventureiro de todos os guarda redes no que respeita a jogar com os pés, René Higuita. Na verdade, um fiasco espectacular. Ninguém poderia, de resto, esperar que a ousadia de Higuita motivasse algum tipo de inspiração, após o golo oferecido perante o decano dos goleadores, Roger Milla, numa das mais célebres jogadas de sempre. Inesperadamente, porém, o mundo dos guarda redes iria aproximar-se muito mais das ideias do excêntrico colombiano, do que afastar-se delas…
Depois de 1992, e durante muitos anos, os pés dos guarda redes foram um último recurso, uma solução que tinha quase sempre a bancada debaixo de mira. Recentemente, porém, essa ideia tem mudado radicalmente, e os guarda redes começaram a fazer parte do plano colectivo, também no que respeita à valorização da posse de bola. O Barcelona terá, sem dúvida, um efeito catalisador na proliferação desta ideia, mas o facto é que ter um guarda redes que jogue bem com os pés é, já hoje, condição obrigatória para muitas das principais equipas do futebol mundial.
Realmente, não é difícil concluir sobre a utilidade deste recurso e, sobretudo, da sua importância para equipas mais técnicas e que fazem da bola um meio prioritário para conseguir impor a sua força nas partidas. É que, com a pressão exercida sobre os defensores, abria-se um dilema: manter a posse mas correr um risco enorme, ou abdicar da característica da equipa para manter a segurança? Nenhuma das soluções seria satisfatória e, por isso, o guarda redes surge como a resposta ideal.
A tendência terá chegado para ficar, não há já espaço para muitas dúvidas, e dela resultarão outros debates e reflexões de ordem táctica e comportamental, que guardo para outra altura. Quanto aos guarda redes, pois não lhes resta outra coisa que não seja cumprir, 20 anos depois, o último degrau de adaptação à famosa evolução de 1992.
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Sérgio




