uma obscenidade escrita por um turista
Parece-me evidente que a sociedade inevitavelmente menos materialista de daqui a umas décadas atribuirá o consumismo como a principal causa dos motins de Londres de 2011, se estiver numa de os analisar (se forem relevantes para o curso da história). Ainda no seu rescaldo, e enquanto se esperam pelos distúrbios de Lisboa, sinto-me no dever de partilhar o artigo escrito pelo João Dias Miguel, 44 anos, jornalista da Visão, e enviado especial a Londres nessa altura. O destaque justifica-se por suscitar em mim 3 tipos de reflexões que de resto se interligam: 1 – acerca da qualidade do jornalismo em Portugal e respectiva tendência para piorar, 2 – acerca do eterno provincianismo português e 3 – acerca do perigo que os media representam.
1 – A Visão tem o luxo (nos dias de hoje) de enviar um jornalista para o calor dos acontecimentos, como se fazia antigamente. João Dias Miguel aceita o desafio de então descrever a excitação da cidade onde aterra e surge assim uma peça jornalística digna de fazer parte do melhor que a pornografia de fetiche escatológico já produziu, impressa mais ou menos a meio do penúltimo número da Visão. O meu próprio fetiche pelo produto Fail é tal que até recortei o dito estrume e trouxe-o para Londres como recordação. A coisa cheira mal logo à partida devido ao estilo: ionlinesco; cheio de si sem que nada lá haja; cheio de detalhes experienciais totalmente irrelevantes para a notícia que narra (o hotel onde ficou hospedado era velho e pouco cuidado e chamava-se Central Park Hotel; ou diz-nos de um caribenho “com ar de avô mas ainda capaz de pegar um touro“). Portugal não precisava do Acordo Ortográfico para escalavrar a sua Língua – bastam os jornalistas. João Dias Miguel, por exemplo, não arranja tradução melhor que “lojas de delicatessen”, não sente necessidade em ser preciso (“vários outros bairros, dezenas de outros bairros, são áreas proibidas”) ou comete mesmo enormes imprecisões num incorrecto tempo verbal (“daí a um par de horas toda a cidade de Londres vai estar a ferro e fogo“).
2 – João Dias Miguel retrata de um modo indirecto a sua própria condição: a de ignorante. Fascina-se com recepcionistas búlgaros por serem búlgaros, estabelece repulsivos paralelos entre postos de caridade da Islamic Relief e “fedorentos caixotes de lixo doméstico”, revela a necessidade de relatar a estranheza que sente perante uma campanha publicitária de prevenção rodoviária (esta) “um estranho cartaz (…) mostra um mulato morto no asfalto, de olhos abertos” , fazendo questão de dizer que quem assinou o cartaz foi o Boris Johnson, que classifica, num estapafúrdio delirante, de anarco-libertário. Miguel prossegue com a dramática descrição da situação em Londres como se estivesse em Tripoli e não tem pudor em amplificar as alarvidades que aleatórios transeuntes terão dito como o que sugeriu que se tinha de “lidar com os animais (referindo-se aos supostos autores dos motins)“ ou utilizando a bela expressão “hordas de negros”. Já sem citar, Miguel usa sem problemas a bestialmente racista classificação “jovens pakis”. O enviado especial insiste em identificar a raça das pessoas que descreve (por 7 vezes o fez, usando as palavras negro ou caribenho/jamaicano) – mas presume-se que o terá feito mais por fascínio exótico do que por precisão narrativa ou intuito racista. O autor destas alarvidades todas (e criador de uma nova classificação de sotaque inglês, o pop-brit, que, segundo ele – e provavelmente só ele -, é o sotaque usado pela polícia londrina), revela ainda que tentou paternalisticamente explicar (de cá para lá, isto é, da luminosidade para a escuridão) a um grupo de jamaicanos (a referência à sua côr/origem deve-se a um acaso?) as “diferenças entre a mais velha democracia do mundo e um par de regimes ditatoriais e parasitas” (referência à Inglaterra e aos países árabes? Ditatorias ainda vá, mas… parasitas, João Dias Miguel?) para eliminar qualquer tipo de comparação entre o que estava a acontecer e as revoltas árabes. A resposta que levou em troca foi a única coisa que se aproveita deste texto “As razões são económicas – lá também começou com o aumento do preço da comida. Acredita, somos todos oprimidos”. Eu também acho que João Dias Miguel tem muito que aprender.
3 – Este texto culminou uma série de “notícias” acerca dos distúrbios publicadas nos jornais principais que invariavelmente se apresentaram unidimensionais, superficiais e insuficientes, não hesitando em associar aos acontecimentos a fotografia de Mark Duggan (o cidadão morto a tiro pela polícia inglesa) em que o mesmo simula uma arma com um gesto . Parece que, incluída na imagem, encontra-se logo a resposta à natural pergunta “Porque disparou a polícia contra Duggan?” – porque Duggan é má rês. Quanto à, Qual a causa dos motins? – não interessa, desde que não seja causa política. Cameron e os outros apressaram-se a esclarecer isso. A imprensa acatou.
Ler notícias constitui hoje em dia um exercício curioso de caça à ausência de perguntas.
Autor
RC
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